Quem é Barbieri?



barbieri

Video depoimento gravado no CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
para o projeto MEMÓRIA ARENA produzido por Chicão Santos (Julho 2015)

Parte I – O nascimento da cena heavy metal em São Paulo


Parte II – O Livro Negro do Rock

 Créditos:
Produção, edição de vídeo e texto: Chicão Santos
Câmera: Zé Amado
Áudio: Alvino de Souza
Fotografia: João Silva

Antonio Celso Barbieri em Kaza!
Entrevistado por Gastão Moreira



Antonio Celso Barbieri

Por muitos anos, assim como muitos outros idealistas e sonhadores, ajudei a construir parte da história do rock nacional.

Minha história com o Rock Brasileiro já vem de longa data. Em 1972, estive envolvido na minha primeira produção chamada “O Show Que Não Tem Preço, Pague-nos Com A Sua Presença”. Neste show, um festival de bandas gratuíto, alguns músicos importantes deixariam a sua marca: Palhinha, Duda Neves e Percy Weiss (na época vocalista da banda US Mail).

Mais tarde, no finalzinho dos anos 70 e começo dos 80  trabalharia com duas bandas seminais: Made in Brazil e Patrulha do Espaço.

A primeira metade dos anos 80 foi quando fui mais ativo, especialmente no estado de São Paulo, minha terra natal. Foi o começo do movimento Heavy Metal no Brasil e como empresário da banda Avenger, uma das primerias bandas paulistas neste estilo produzi muitos shows abrindo novos espaços para o rock.

Neste período, além dos shows acima citados, produzi centenas de outros shows e pequenos projetos, ainda achando tempo para ajudar a gravadora Devil Discos à criar seu próprio selo produzindo seus dois primeiros álbuns. O primeiro foi uma coletânea de bandas gravadas ao vivo no Teatro Lira Paulistana chamada São Power e o segundo o primeiro álbum da banda Korzus chamado Korzus ao Vivo e baseado em gravações de shows feitos no Teatro Lira Palistana e Teatro Sesc Fábrica Pompéia.

Alguns eventos produzidos pelo Barbieri:

Nome do Evento e Local
Poster do Evento
Ano Descrição
Projeto
SP METAL I

Teatro Lira Paulistana
sp metal first season 500 1985 Shows sempre com a participação de duas bandas todas as segundas e terças acontecendo por vários meses com a participação de dezenas de bandas.
Projeto
SP METAL II

Teatro Lira Paulistana
sp metal second season 500 1985 Segunda temporada de shows  sempre com duas bandas todas as segundas e terças por vários meses.
Projeto
METAL, ROCK & CIA

Teatro Sesc Fábrica Pompéia
metal rock e cia 1985 19 bandas  tocando em dois fins de semanas.

Projeto
NÃO SÃO PAULO

Teatro Sesc Fábrica Pompéia
nao sao paulo poster 500 1985 Um fim de semana com shows de algumas das mais importantes bandas pop daquele período. Elas estavam lançando o álbum Não São Paulo produzido pela gravadora Baratos Afins.
COMETA ROCK FESTIVAL
Clube Radar Tantan
cometa rock festival 1985 Show com as bandas Made in Brazil, Platina, Alta Tensão, Vulcano e Karisma. As quatro primeiras lançavam álbuns independentes neste dia.

PRAÇA DO ROCK

Concha Acústica do Parque da Aclimação (SP)
praca do rock aclimacao 1985
Shows ao ar livre todo último domingo de cada mês. Este projeto foi criação do músico Dalan Jr. com apoio do Jornal do Cambuci. Barbieri foi o apresentador do evento.
Projeto
SÃO POWER

Teatro Espaço Mambembe
sao power poster 500 1986 Shows sempre com duas bandas todas as segundas por vários meses. O teatro ficava perto do Centro Cultural de SP.

ROCK NA SÉ
Praça da Sé
rock na se panfleto 500 1986 Concerto na praça da Sé com participação de 13 bandas em apoio à candidatura de Barbieri para Deputado Estadual.
HARPPIA ON TOUR 87
Teatro Arthur Azevedo
shows de 04 à 08/03/1987
20:00 horas - Moóca
Teatro
Paulo Eiró
11 à 15/03/1987
20:00 horas - Santo Amaro
Teatro
Martins Penna
18 à 22/03/1987
20:00 horas - Penha
harppia on tour 87 new art 1987

3 semanas de shows com a banda Harppia pelos teatros da Prefeitura de São Paulo. As bandas que abriram os shows foram:

Ozone
Santa Gang
Vodu
Viper
Spectrus

 

No final de 1986, minha postura política colocou-me em situação difícil quando aceitei o convite para sair como candidato a deputado estadual pelo Partido Comunista Brasileiro. Descobrí neste período quem era realmente meu amigo. Descobrí também que não se pode fazer a revolução da sociedade sem fazer-se a revolução do "ser" primeiro. Descobrí que política é a cultura da mentira e que o poder realmente corrompe.

Depois de muitos anos dando murro em ponta de faca, decidí que estava na hora de fazer a minha revolução particular. No começo de 1987 embarquei para a Europa e acabei firmando raizes em Londres onde continuei a minha batalha pelo rock brasileiro ajudando a nossas bandas da melhor maneira possível dentro das minhas condições econômicas.

Virei Correspondente Internacional para a Revista Dynamite de São Paulo, entrevistando de Mettalica a Blur passando por Radiohead e muitos outros.

Cobrí shows importantes como o primeiro concerto em Londres do Foo Fighters e a volta do Sex Pistols além de ter presenciado o lendário James Brown ao vivo. Ainda fui previlegiado em poder ter assistido os shows do Judas Priest, Iggy Pop e a inesquecível Tina Turner aqui em Londres, assim como George Clinton e Jorge Benjor em Canes.

É claro que também estive presente nos concertos memoráveis do nosso João Gordo e Ratos de Porão e do mundialmente famoso Sepultura. Hospedei um incontável números de bandas brasileiras vindas de várias partes do nosso país. Um dos pontos altos da minha carreira foi a produção em 1992 do histórico concerto da banda Korzus no lendário Marquee Club. 

Bom, minha aventura pelo Rock já tem mais de 40 anos e, a verdade é que durante este tempo todo juntei um monte de informação. São muitos recortes de jornais, revistas, fitas cassetes, vídeo tapes, etc. Tinha muita coisa guardada na memória e se desfocando pela ação do tempo e por isso mesmo gritando para se perpetuar de alguma forma. 

o livro negro do rock acbarbieri
Barbieri em maio de 2015, no lançamento do O Livro Negro do Rock em São Paulo,
na Livraria Martins Fontes filial da Av. Paulista.

Barbieri - Memórias do Rock Brasileiro

Quer dizer, depois de tantos anos não deu para adiar mais e em 2004 criei um website chamado Barbieri - Memórias do Rock Brasileiro (www.celsobarbieri.co.uk) para preservar minhas memórias, divulgar o nosso Rock e aproveitar para dar vazão ao meu universo criativo literário, visual e sonoro!

Bom, tem muita raridade, muito audio, fotos e histórias, algumas que certamente podem dar muito o que falar.

Terá gente que não gostará? Provavelmente! Causará controversia? Espero que sim! :-) Só posso garantir-lhes que, minhas memórias foram e ainda são contadas sincera e honestamente no melhor da minha lembrança! Aproveito para lembrar que, sempre que algum leitor me prova, enviando uma correção de nomes ou datas, imeditamente faço, no meu texto, as correções necessárias.

De qualquer forma, de uma coisa vocês podem estar certos... Satisfação financeira nunca tive mas, no final, ninguém nunca poderá dizer que eu não tentei...

Fico feliz em informar os caros leitores que o site Barbieri - Memórias do Rock Brasileiro (www.celsobarbieri.co.uk) agora em 2016 ultrapassou a marca dos 2 milhões de visitantes!

barbieri bruges belgica
Antonio Celso Barbieri em Bruges na Bélgica. Foto: Andrea Falcao (2019)


BARBIERI, O CULTO E O OCULTO NO ROCK BRASILEIRO
Entrevista originalmente concedia, à Luís Carlos.
 
Se eu tivesse que entrevistar o Barbieri mais uma, duas, três vezes, ainda assim faltariam muitas histórias para contar. Produtor, radialista, jornalista, essa figura incansável segue em frente com seu legado de amor pela arte.
 
Vamos ao papo!
 
01 - Quem era o Barbieri antes de tornar-se essa pessoa multifacetada na música?
 
Barbieri: Bom, acho que sempre fui uma pessoa multifacetada. Já explico! É que na minha vida, desde que me entendo por gente sempre fui atraído, ao mesmo tempo, por várias áreas do saber. Sempre fui um sonhador e também o que hoje em dia o povo conhece como um “nerd”. Coexistir com o meu universo mental e a minha realidade física sempre foi muito difícil. Na escola prestar atenção nas aulas era uma tarefa quase impossível. Agora, aprofundar-me nos assuntos de meu interesse, quase uma obsessão.
 
Para caminhar da ficção científica à exploração espacial, filosofia da ciência, paranormal, discos voadores, todo tipo de arte incluindo obviamente o rock, para mim, sempre fez muito sentido. A verdade é que meu jeito de ser causou-me desde criança um conflito com meu pai que não entendia o porquê das minhas notas baixas na escola. Sei lá, talvez eu sofresse de algum tipo de deficiência de atenção. Então, muito cedo, adaptei-me e encontrei meu jeito de viver no meio dos “normais”. Sempre me meti em situações tensas e tive problemas econômicos. Tanto que me apelidei de “o mestre da corda bamba”. Acho que por isso mesmo acabei virando um “expert” em design, quero dizer, tudo para mim é a mesma coisa, texto, desenho, música, etc. Eu adoro, no computador, reagrupar coisas, juntar palavras e criar um conteúdo novo. Da mesma forma adoro juntar imagens já existentes e agrupa-las para transmissão de uma nova mensagem. Eu chamo isto de “Colagem Digital”. Quando crio música, no Rock entendo que este estilo é um grande camaleão que me permite de forma livre reagrupar vários elementos para criar o novo.
 
Imaginem, lá pelo começo dos anos 70, que com todas essas limitações, cheguei até ser um Chefe de Divisão, administrando a área de Cadastro do Banco Noroeste do Estado de São Paulo. Neste período tive que ter duas identidades. No banco usava terno e gravata e administrava uns 30 funcionários. Quando já na rua, colocava um brinco na minha orelha esquerda. Na verdade, inicialmente, o brinco não tinha nada a ver com Rock, a razão para usa-lo era pelo fato de ser fã da série de TV do pesquisador marítimo francês Jacques Cousteau e quando percebi que alguns de seus marinheiros usavam um brinco achei o máximo. Então, para mim, usar um brinco era como se fosse usar um símbolo de liberdade.
 
Portanto, a roupa que usava para trabalhar, considerava como se fosse a minha identidade falsa, apenas meu uniforme. Quando saia do banco imediatamente tirava a gravata e colocava meu brinco bem pequeno, de ouro, formato argola que, quando colocado, ficava exatamente igual à dos marinheiros do programa de TV. Obviamente, quando colocava o brinco assumia imediatamente a minha outra identidade; a de roqueiro. Sabia que era apenas um brinquinho, mas, para mim era como tivesse assumido uma nova persona.
 
Sempre que podia, na hora do almoço ou quando saia do trabalho, fazia o circuito dos sebos de disco buscando por vinis raros. Cabe lembrar que, me refiro a sebos de disco porque, no começo, eram mesmo. Espalhados pelo centro velho de SP, um sebo de disco era apenas uma salinha, perdida em algum andar de um prédio velho, quase sempre sem muita mobília ou decoração e em alguns casos extremos, apenas contendo uma cadeira para o dono do estabelecimento, cercado de pilhas de vinis pelo chão, sentar-se. Este sim foram tempos emocionantes onde podíamos sair destas lojinhas com aquele álbum raríssimo debaixo do braço, álbum pago com um preço muito barato.
 
Dentro da minha “patologia” colecionar coisas sempre foi uma constante: tampinhas garrafa, marcas de cigarro, figurinhas, gibis e mais tarde vinis, CDs, mp3, vídeos e muitos livros... Hoje sou um colecionador de ideias, de conhecimento!
 
Sempre me interessei por música, então, em 1974, mesmo trabalhando no banco abri em parceria com meu irmão Jorge uma lojinha de discos no Bairro do Limão chamada Stocking Music Center (Stocking significa “meia de seda” e era uma referência à androgenia de Alice Cooper, David Bowie e Marc Bolan). A loja durou apenas aproximadamente um ano, mas fiz amizades que duram até hoje. Anos depois abriria outra lojinha chamada Rocker. fui o primeiro a lançar as camisetas de rock no Brasil. A minha marca chamou-se Rocker e fui o primeiro revendedor de camisetas na Galeria do Rock.
 
Foi só lá pelo começo dos anos 80 que tive a oportunidade de aprender tocar um pouco de piano. Foi com Enny Parejo, hoje uma renomada especialista no ensino musical. Na época nós éramos apenas namorados e nossa relação professor/aluno nunca foi fácil porque, sempre fui um estudante difícil para estudar e seguir normas e convenções. Na época Enny e seu amigo Oswaldo Mori (Vado) estudavam Composição e Regência na UNESP e como percebi que os dois faziam uma excelente dupla musical, logo estava produzindo vários shows deste duo no Teatro Lira Paulistana, Centro Cultural e outros teatros. Cabe lembrar que antes disto eu já tinha na prática frequentado a "escola do rock”, ganhando alguma experiência trabalhando com as bandas Patrulha do Espaço, Made in Brazil e por um curtíssimo período com Arnaldo Baptista.
 
Neste período, também virei o empresário da banda Avenger, uma das primeiras bandas 100% Heavy Metal de SP. Então, naturalmente, também a levei Avenger para tocar no Teatro Lira Paulistana. Este show do Avenger no Lira deu a partida para o meu Projeto SP Metal que rolou neste mesmo teatro em duas temporadas, durando vários meses. Com o início do Projeto SP Metal no Teatro Lira Paulistana “a pedra começou rolar” e logo eu estaria fazendo o Projeto Metal, Rock & Cia. no Sesc Pompéia com a participação de 19 bandas, acabaria sendo convidado para ser o apresentador da Praça do Rock no Parque da Aclimação e como resultado, me tornado uma figura conhecida na capital de São Paulo e principalmente na Galeria do Rock.
 
Bom, a história é grande, mas, entendam que evidentemente, existem muitos “Barbieris” dentro da minha cabeça. Existe o roqueiro, o músico, o político, o artista gráfico, o crítico musical, o jornalista, o escritor, o homem que se casou três vezes, etc. Cada um destes personagens daria material para um livro.... Portanto, fico por aqui e vamos para a próxima pergunta!
 
02 - Você que viveu a década de 70, qual a diferença daquela época para hoje quando falamos de música?
 
Barbieri: Os anos 60 e 70, foram anos de profundas mudanças sociais e políticas. Foi uma época revolucionária em muitos aspectos e naturalmente o rock, de forma espetacular, refletiu isto. As centenas e centenas de bandas deste período não estavam apenas tocando, elas estavam criando um estilo, discutindo a realidade e mudando os costumes deste período para sempre. Hoje em dia raramente existe uma banda nacional ou mesmo internacional pesquisando algo novo e tomando riscos. A meu ver, a realidade é que, independentemente do gosto musical ou em termos de estilo o último artista nacional que criou algo realmente novo e sofisticado foi Arrigo Barnabé. Nos anos 60 e 70, no Brasil, as únicas bandas que realmente inovaram e ao mesmo tempo estavam sintonizadas com o que acontecia no mundo, foram respectivamente Os Incríveis e Mutantes. Isto não significa que estou diminuindo a qualidade das nossas bandas do período! Muito pelo contrário! Segui de perto além de Mutantes, Terço, Som Nosso de Cada Dia, Terreno Baldio, Made in Brazil, Patrulha do Espaço, Peso, Casa das Máquinas e muitas outras, todas excelentes.
 
03 - Você que trabalhou com nomes importantes do Rock Brasileiro, indicaria alguém hoje que pudéssemos dizer que futuramente será um destaque na música Brasileira?
 
Barbieri: Uma vez, muitos anos atrás, aqui em Londres, bati um papo com o então editor chefe da lendária revista Metal Hammer. Na conversa perguntei para ele: “Uma vez que o senhor está no topo da coisa, recebendo centenas e centenas de correspondências semanais vindas do mundo todo, sempre contendo material de bandas novas e sabendo de antemão que o rock é um grande camaleão, qual acha que será a nova tendência do momento? Que estilo está por vir?” Sua resposta foi:
 
“Meu filho, seu eu soubesse, montava uma banda e ficava rico!”
 
Então, respondendo a sua pergunta, se soubesse quem é o grande nome da música brasileira, mais precisamente do rock brasileiro que fará sucesso, procuraria aproximar-me dela! Tendo disto isto, já faz tempo que não escuto nada realmente novo e inteligente, que traga um apelo que conjugue visão empresarial, vendas, coragem e competência! Não me confundam! Tem muita banda boa e de nível internacional, mas nenhuma com a força e apelo que por exemplo teve a banda Sepultura no seu começo.
 
04 - Ao se decepcionar com a política enquanto candidato, isso foi um fator importante para que você resolvesse ir embora do Brasil?
 
Barbieri: Sim, como resultado do falecimento recente do lendário político Ricardo Zarattini, fiz este comentário no face:
 
“Faleceu hoje (15/10/2017) o companheiro Ricardo Zarattini, militante histórico da esquerda brasileira. Ricardo Zarattini em 1986 fez uma parceria comigo onde, imediatamente após a legalização do PCB, nós saímos juntos para concorrer nas eleições daquele ano. Ele para Deputado Federal e eu para Deputado Estadual (por SP). Já sabíamos de antemão que ganhar seria muito difícil, porque a ditadura da direita tinha tido 30 anos para mexer os pauzinhos e, entre outras coisas, mudar a lei eleitoral, criando o chamado “voto de legenda”.
 
De qualquer forma para mim foi uma experiência emocionante e ao mesmo tempo muito difícil. Algumas portas se abriram, mas muitas se fecharam! Depois destas eleições minha desilusão foi muito grande, tanto com algumas bandas e amigos como com a própria política e o PCB em particular. Então, com muitas portas fechadas, falta de suporte e opções, foi forçado buscar uma saída. Certamente o resultado da minha participação nas eleições de 1986 acabaria sendo uma das razões porque, a primeira chance que tive, saí do país.
 
05 - Durante todo esse tempo morando em Londres, qual a grande diferença daí pro Brasil e o que você destacaria como bom e como ruim na cena Inglesa? Pensa em voltar algum dia?
 
Barbieri: Cheguei em Londres, em março de 1987, atravessando o Canal da Mancha em Calais na Franca em direção à Dover já na Inglaterra. Só tinha uma nota de 100 dólares e usei-a para, na travessia, pagar no barco. Recebi de troco, já convertido, aproximadamente 40 libras. Era tudo o que eu tinha! Cheguei preparado para dormir na rua se necessário. Tive sorte e fui ajudado por um exilado político chileno comunista. Só aí entendi porque é que eu fui parar no PCB! Foi "a lei do retorno em ação"! Tudo tinha sua razão de ser! Estou com 67 anos e até os 50 a vida em Londres foi, para mim, muito difícil. Por um período fiquei ilegal no país e acabei sendo preso pela imigração duas vezes. A coisa só melhorou bastante quando consegui meu passaporte italiano e mais ainda quando consegui minha cidadania britânica. Não sou rico, mas, hoje até que enfim não tenho mais problemas financeiros e, portanto, vivo com dignidade. No momento, estou aposentado e, portanto, posso dedicar-me apenas à minha vida conjugal, à busca do saber e a todo tipo de atividade artística. Para mim, os motivos para estar aqui em Londres são: econômico, segurança, estar longe da minha família (família para mim é só competição e problema), liberdade individual (aqui posso continuar criança para sempre), estar mais perto do futuro, viver no topo do mundo e por aí vai...
 
Quanto ao Brasil nem vou falar nada.... Todo mundo sabe que o sistema político e social brasileiro está muito ruim e as pessoas estão cada vez mais egoístas, consumistas e desumanizadas. O povo de São Paulo a cada ano que visito está com sotaque mais “caipira” e a cidade está cada vez mais feia e descuidada com o centro tomado por uma legião de zumbis drogados, vendedores ambulantes e comandada sempre por mais um prefeito cheio de atitudes populistas que como os anteriores, apenas veio para saquear os cofres públicos com a única intenção de ser governador e depois presidente.
 
Mas, voltando a cena inglesa, depois do chamado Britpop dos anos 90, fraquinho por sinal, nada aconteceu que me surpreendesse. Na minha opinião um dos momentos mais emocionantes foi a volta em 2007 para apenas alguns shows no O2 Arena da banda Led Zeppelin. Infelizmente não pude assistir pois os ingressos esgotaram-se em apenas uns 10 minutos (e custavam uma fortuna). Uma vez um amigo de uma gravadora aqui de Londres, frustrado me confidenciou que “hoje em dia para gravar aqui em UK o artista ou tem que ser gay, black ou formado por bandas de garotas ou garotos tipo bimbos. Na parada musical só dá dance, rappers, girl bands e boy bands!” Quer dizer, comparado com isto até o Britpop parecerá bom! Sinceramente, hoje em dia a Suécia e os países escandinavos estão dando de 10 nos ingleses! A BBC que obriga a população a pagar todo ano, quase 150 libras de licença para ter direito de ter uma TV em casa, usa este canal apenas para vender as ideias conservadoras do governo e transformou-se numa TV de puro saudosismo onde só se salvam as transmissões ao vivo dos festivais de verão com destaque para o Festival de Glastonbury.
 
Quanto a voltar a viver definitivamente no Brasil, acho difícil, se ganhasse na loteria talvez achasse uma praia maravilhosa, com acesso à Internet banda larga para viver todo dia olhando para o mar, mas, com a felicidade de saber que ao mesmo tempo estou conectado com todo o mundo! Para falar a verdade, a Itália com todas a sua cultura, história, beleza e gastronomia, aliada ao meu passado ancestral, me atraem profundamente.
 
06 - Mesmo morando fora do Brasil, existe uma conexão muito forte entre você e com o que é feito aqui no Brasil, inclusive de bandas que tiveram seus trabalhos divulgados no exterior e com Bandas que foram tocar em Londres. Conte-nos um pouco sobre isso.
 
Barbieri: Não sou religioso, mas, dizem que Jesus disse: “Aquele que vir na minha direção, irei me encontrar com ele no meio do caminho”. Eu acredito muito nesta ideia. Todas as bandas que bateram na minha porta ou procuraram entrar em contato comigo, na medida do possível, ajudei.
 
Logo que cheguei em Londres passei a ser Correspondente Internacional da Revista Dynamite pertencente ao meu amigo André “Pomba” Cagni. Além de cobrir shows, exposições, lançamentos de bandas, tinha também minha coluna chamada London Calling e, nesta coluna, mencionava sempre meu endereço. Assim, logo bandas começaram a bater na minha porta e a dormirem pela sala e corredor. Cheguei até a ter um livro de visitas onde o povo deixava seus agradecimentos.
 
Durante os anos, aprendi a perceber e respeitar as sincronologias, ver aquelas coincidências incríveis que acontecem. Músicos que você admira, mas nunca tinha tido contato ou músicos e bandas que desconhece totalmente entrando na sua casa e na sua vida. Eram como se o destino estivesse redirecionando a minha vida.
 
Na minha vida, não planejo nada. Quer dizer, deixo as coisas acontecerem. Meu barquinho está navegando livre e estou mais preocupado com o panorama do que com o destino final. Já minha esposa, felizmente, tem os pés fincados no chão e me ajuda, questionando minhas atitudes. Ela diz:
 
“Você faz tudo de graça e por isso ninguém dá valor! Estas bandas brasileiras são todas iguais! Só lembram quando precisam! Usam e depois esquecem! Quantas vezes você já se decepcionou e sofreu por isto?” A minha resposta é sempre a mesma:
 
“Eu não tenho escolha! É o meu destino! Se fechar a porta para todo mundo vou virar um ermitão! Não podemos fazer as coisas esperando nada! Tudo tem o seu tempo! O que é meu de direito um dia chegará!” E a verdade é que tudo está chegando e cada vez mais rápido! Este convite para ser entrevistado aqui é uma prova disto! De que qualquer forma, com a ajuda de Andrea e meus estudos exotéricos, aprendi que ser bom não é ser bobo! Tenho sido muito mais criterioso com as minhas escolhas!
 
Como disse, recebi muito músico aqui em casa, entrevistei e assisti vários shows de bandas brasileiras que pisaram aqui na terra da rainha, mas, gostaria de destacar que sou muito orgulho de ter produzido o show da banda Korzus no The Marquee Club em 1992 e de que, algumas vezes colaborei assessorado a banda Vulcano quando estiveram tocando por aqui.
 
07 - É quase impossível falar de você e não lembrar do "O Livro Negro do Rock". Fale-nos sobre ele e o que ele representa na sua carreira?
 
Barbieri: Como tenho um website, que já existe por mais de 10 anos, chamado Barbieri Memórias do Rock Brasileiro (www.celsobarbieri.co.uk), site que já passou dos 2.8 milhões de visitantes e tem centenas e centenas de artigos escritos por mim, acho que escrever um livro foi uma evolução natural do meu trabalho.
 
A livro simplesmente aconteceu! Como estava pesquisando sobre a história do porto de Santos pois tinha recebido um e-mail vindo de um músico contando-me que ele se interessou por rock, ainda garoto, quando escondido da família, ia ver as bandas que tocavam nas boates que ficam nas proximidades do porto de Santos, fiquei curioso e tentando saber mais, entrei em contato com duas bandas santistas com quem já tinha trabalhado no passado: Vulcano e Santuário. Numa conversa com Zhema, o líder da banda Vulcano fiquei sabendo que ele era um profundo conhecedor do oculto. Nesta conversa ele me disse ter sido muito influenciado pelos pensamentos de um mago muito controverso chamado Aleister Crowley.
 
Paralelamente, também estava pesquisando um pouco sobre Raul Seixas pois, durante a minha vida roqueira "on the road" tinha cruzado com ele algumas vezes e queria contar estas memórias no meu site. Acontece que pesquisando sobre a sua Sociedade Alternativa descobri que, curiosamente, ele também tinha sido muito influenciado pelas ideias de Aleister Crowley. Obviamente, vi a “sincronicidade” em ação, obedeci e fui pesquisar Aleister Crowley. Aleister Crowley então me levou à Black Sabbath e Led Zeppelin. Bom, nem preciso dizer que, quando dei por mim, estava escrevendo "O Livro Negro do Rock".
 
Infelizmente, a realidade do Brasil é sempre pobre. O artista se quiser ver seu projeto lançado, tem que pôr a mão no bolso e lançar ele mesmo! Em conversa com o meu editor, em resposta ao meu desabafo quanto a situação difícil do escritor brasileiro, ele apesar de dizer que o mercado editorial estava péssimo para todos, tanto escritores como editoras, tentou me incentivar dizendo que “muitas vezes um livro pode não vender bem, mas, em contra partida ele poderá muito bem abrir portas para novas e inesperadas oportunidades profissionais que como resultado poderão até lhe trazer muito mais respeito. Verdade! A tiragem do meu livro foi pequena e está quase no fim, mas, o respeito que recebi foi muito mais do que o que recebi pelo meu trabalho de mais de 40 anos à serviço do Rock Brasileiro.
 
08 - Diante das milhares de coisas que você fez e faz, ainda tem alguma coisa que gostaria de fazer?
 
Barbieri: Gostaria de ter minha música usada numa trilha sonora de filme, num comercial ou mesmo num ballet como é o caso do meu último álbum chamado “Love is the Law” cujo som instrumental beira o clássico, o progressivo e o experimental. Para escuta-lo é só visitarem www.2bstar.com. Gostaria de um dia conseguir apresentar-me ao vivo tocando guitarra ou piano executando meu material autoral. Gostaria de atuar num filme num papel intenso onde pudesse usar a minha bagagem emocional e experiência.
 
09 - Qual você acha melhor, o Rock Inglês ou o Americano?
 
Barbieri: Historicamente o Rock Inglês é melhor, mas não podemos esquecer que eles foram inicialmente papagaios, copiando e se apoderando do Blues norte americano. A análise torna-se mais complexa porque se não fossem os ingleses talvez não conheceríamos, entre muitos outros artistas negros, Chuck Berry, Little Richard, Mud Water, B. B. King e John Lee Hooker. Os Beatles e os Rolling Stones são responsáveis por literalmente colocarem os ingleses no mapa, mas, cabe lembrar que em 1969, o Festival Woodstock, em áudio e filme, com suas bandas a grande maioria norte americanas, influenciou toda uma geração.
 
Foi no começo dos anos 70 que o Rock Pesado se afirmou com a chegava de uma trinca de bandas poderosas: Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple (Eu sei! Tem muito mais!). Então, o Rock Pesado ajudou desviar ainda mais o foco de atenção para a Inglaterra. Hoje em dia, já não me interessa de onde a banda é originária, já faz tempo que meu único controle de qualidade é se a banda é boa ou ruim.
 
Infelizmente, atualmente muitos jovens no Brasil confundem qualidade com estilo! Eu escuto tudo quanto é estilo de rock! Meu único padrão é qualidade e competência! Quando se trata de banda brasileira, de cara, já dou um ponto só por ser uma banda nossa. Sempre escuto qualquer banda brasileira do ponto de vista do produtor imaginando como ela poderia ser bem melhor se tivesse acesso à bons estúdios, técnicos e o mesmo suporte que recebem as bandas grandes na Europa e Estados Unidos. Melhoramos muito em termos de estúdios de gravação, tecnologia de palco e equipamentos. Apesar do CD estar em declínio, gravar um CD, não é mais uma coisa de outro planeta! Tendo dito isto, não sei se é um problema cultural ou falta de recursos mesmo, mas, acho que ainda falta muito para chegarmos lá! Toda banda começa copiando os seus ídolos! Eu entendo e acho normal! Só que, como uma banda raramente estoura no primeiro álbum, ela terá que lançar uns 3 álbuns para encontrar o seu estilo! Quer dizer, na nossa terra elas sempre acabam muito cedo ou ficam insistindo eternamente na cópia e nunca acabam encontrando o seu próprio estilo! Por outro lado, como o Rock Nacional não fala a língua do povo, portanto, continuará sendo sempre marginal! Quer dizer, não adianta as bandas ficarem metendo o pau no Sertanejo se as suas ações não forem acompanhadas de umas atitudes práticas para tentarem consertar este problema. Eu entendo que o verdadeiro artista é um ser muito especial que absorve a realidade ao seu redor, a transforma em poesia, literatura, pintura, música, etc. e a devolve para as massas! Desculpem-me, mas, sinceramente não estou vendo isto! O que vejo é um povo achando que ser um artista é primeiramente viver de música e ficar rico! A realidade é bem outra! Infelizmente, ser músico, ser um artista, quase sempre é escolher o caminho do "profeta", o caminho do calvário!
 
Esta crise política, escancarou a realidade e mostrou quem é quem no rock brasileiro! Apenas 5% ou menos dos músicos do Brasil estão com coragem de serem defensores dos interesses da população, o resto ou estão calados, andando em cima do muro ou pior, assumiram o discurso do ódio e revelaram estar do lado desta elite desumana e cruel que quer prejudicar o povo ainda mais! Quer dizer, está tudo uma vergonha!
 
10 - Sendo um cara com tantas histórias para contar, quando é que teremos sua biografia?
 
Barbieri: Para contar uma biografia verdadeira e honestamente, teria que abrir o coração e contar não só os bons momentos como também os maus, as dificuldades, os desentendimentos e amarguras porque passei:
 
Músico famoso roubando microfone do teatro durante o show. Dono de loja e gravadora se achando dono das bandas, sabotando meus shows, falando mal pelas costas ou dando chapéu. Bandas achando que tinham 400 pessoas no teatro quando só cabiam 200. Shows acabando e na hora de eu fazer o acerto com a banda e assim, pegar a minha comissão, ser tratado como um abutre ladrão. Músico sacaneando músicos de outras bandas ou mesmo seus próprios músicos na minha frente. Músico ligando para dizer que não vai tocar no show que estou produzindo porque segundo ele, “ele não toca em show produzido por comunista”. Banda ficando hospedada gratuitamente aqui na minha casa em Londres por uma semana, mas negando depois uma música para acrescentar numa coletânea que estava organizando. Empresário de banda que vai tocar no meu projeto ligando em meu nome para centenas e centenas de músicos convidando-os para virem ao show e entrarem gratuitamente, aproveitando assim para assinarem contrato comigo, criando o maior caos no teatro, etc., etc. Infelizmente esta lista não para aqui e é dolorosamente grande. Lamentavelmente, não sei se é por bem ou por mau, mas tenho boa memória e carrego até hoje a dor destes momentos. Como alguns destes maus agradecidos, desonestos ou simplesmente irresponsáveis já morreram, não quero ficar remexendo este passado porque certamente dirão que foi tudo invenção minha...
 
Como John Lennon, prefiro dizer que não acredito mais na palavra de ninguém, só acredito em mim e na minha esposa Andrea. O sonho acabou! Hoje meço todo mundo só pelas suas ações! Usar apenas as palavras são só para os políticos! Juro, sempre, na medida do possível, procurei completar minhas palavras com ações. Dizem que de gente com ideias o mundo está cheio! Perdoem-me se pareço pretencioso ou arrogante, mas, tem gente que fala, eu faço!
 
Por estas e outras, acho um grande desafio escrever minha biografia. Aliás, se procurarem e juntarem tudo que já escrevi e também assistirem a várias entrevistas dadas em texto e vídeo, acho que já terão uma boa biografia.
 
Recentemente, devido à polêmica causada por este governo retrógrado no poder que elogiou a nefasta Ditadura Militar e até pede a sua volta, percebi que, no Brasil, minha vida no rock como Produtor Cultural, aconteceu justamente durante "os anos de chumbo". Neste período vivi muitas histórias, alguns verdadeiros pesadelos e, justamente, estou com muita vontade de junta-los num livro que se chamaria “Barbieri: O Sonho do Roqueiro Socialista!”. Que vocês acham?
 
Caro Luís Carlos, agradeço de coração pela oportunidade dada e aproveito para parabeniza-lo pelo teor das perguntas! Pergunta inteligente é assim, a resposta quase vira um livro! :-)

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